Entrevista a Ana Leça, finalista da WAF


Ao longo das próximas semanas, vamos dar a conhecer melhor as finalistas da 1ª edição da WAF – Women in Art Fellowship. Cada uma delas partilha connosco o seu percurso, referências, motivações e visão artística através de uma entrevista exclusiva. Hoje começamos com Ana Leça.


WAF — Podes contar-nos um pouco sobre ti e o teu percurso até ao momento?

Ana Leça – Nasci em Vila Nova de Gaia, em 1998, e cresci a construir universos tácteis e pictóricos onde cada matéria se transforma num gesto poético e num pensamento crítico. A minha linguagem artística nasce no cruzamento da pintura, da escultura e do desenho — um território onde o corpo vibra frágil, vulnerável, em constante metamorfose, convidando o olhar a tocar a superfície e a sentir-lhe o peso, a memória e a respiração.

Formei-me em Artes Plásticas, primeiro na Escola Artística Soares dos Reis, com especialização em Têxteis, e depois em Pintura na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, onde atualmente estou a terminar o mestrado na mesma área. Pelo caminho, fui descobrindo e afinando técnicas em oficinas e masterclasses, da feltragem à ilustração, da escultura à internacionalização de projetos de arte pública. Trabalhei também como coordenadora sociocultural com crianças, e essa experiência ensinou-me a importância do diálogo e da participação comunitária na criação artística.

O meu percurso expositivo inclui apresentações em diversas cidades do país, e uma menção honrosa na 5ª Bienal Internacional de Arte Gaia. E, mais recentemente, tive a honra da minha obra Genetriz ser adquirida pela Associação de Coleções/Berardo Collection — um marco que reconhece e valida a urgência do diálogo que estabeleço entre matéria, corpo e ideia.


WAF — Qual foi o maior desafio que encontraste na tua carreira artística até agora e como o superaste?

Ana Leça – Penso que o meu maior desafio foi e contina a ser aprender a habitar as histórias dos outros sem me perder nelas. 

O meu trabalho leva-me, muitas vezes, a ouvir relatos crus, íntimos, marcados por dores ou memórias que não pedem licença para entrar. Ao representá-los sem filtros, senti por vezes o peso dessas vidas a atravessar-me, como se o meu corpo fosse apenas uma extensão da voz que as narrava. No início, carregava-as sozinha, confundindo empatia com absorção total.

Superar este desafio exigiu construir um espaço interno de cuidado: escutar profundamente, mas também saber devolver ao mundo o que não me pertence. Aprendi a transformar essa carga em matéria criativa, respeitando a integridade de quem partilha e a minha própria saúde emocional. Hoje, entendo que o papel do artista não é salvar nem falar por alguém, mas criar um território onde essas histórias possam existir com dignidade e ressonância.

WAF — Que experiências consideras terem sido mais determinantes na tua evolução enquanto artista?

Todas as experiências que me colocaram perante a matéria e o corpo como campos de experimentação e de confronto foram determinantes. A formação técnica em diferentes meios — do têxtil ao metal, do vidro soprado ao gesso — deu-me um vocabulário táctil que molda a forma como penso e construo as obras. As oficinas em que participei, em especial a experiência internacional na Académie Royale des Beaux-Arts de Bruxelas, abriram-me novos modos de olhar e expandiram a minha prática para além das fronteiras disciplinares.

No entanto, talvez as experiências mais transformadoras tenham sido os encontros — com artistas, com comunidades, com espectadores anónimos — que me devolveram novas leituras sobre o que faço. É nesse diálogo, muitas vezes imprevisível, que a minha obra encontra o seu lugar mais vivo: no reflexo que desperta nos outros e no questionamento que retorna para mim.

WAF — Quais são as tuas principais referências artísticas ou culturais?

As minhas referências habitam territórios onde a arte se confunde com a vida e a memória se torna matéria. Naturalmente existem artistas que vou descobrindo pelo caminho e me ajudam a pensar, mas alguns destacam-se, como por exemplo: Christian Boltanski, com a urgência de preservar o rasto humano e o poder do arquivo como narrativa sensível; Gerhard Richter, com a tensão entre nitidez e desfoque, entre a presença e o esquecimento; Louise Bourgeois, a esculpir a vulnerabilidade e a transformar a intimidade em monumento; Marina Abramović, ao pensar o corpo como espaço mais radical de confronto e entrega; Jenny Holzer, com o poder da palavra como gesto público e político; Nan Goldin, com a verdade crua do quotidiano e das relações; Maria José Oliveira, com a delicadeza com que a matéria se torna pele; entre outros como ORLAN, Yoko Ono e Tracey Emin, por exemplo, onde me mostram que a arte pode ser também provocação, confissão e manifesto — um território de liberdade absoluta, onde não há separação entre criação e existência.

Estas vozes, vindas de lugares e linguagens distintas, não vivem no meu trabalho como citações diretas, mas como ecos. São bússolas que me recordam que a arte, quando é verdadeira, atravessa sempre o íntimo e o universal ao mesmo tempo.

WAF — Que artistas, movimentos ou acontecimentos mais influenciaram a tua prática?

Ana Leça – Influenciaram-me artistas que, ao explorarem a materialidade, não têm medo de tocar na ferida — de expor a tensão entre o que é frágil e o que é resiliente. Movimentos como a arte povera ensinaram-me a aceitar a imperfeição e a reconhecer no desgaste e na cicatriz uma forma de beleza, absorvendo a valorização do que é humilde, gasto e efémero, onde texturas irregulares e sinais de uso não diminuem a obra, mas antes lhe acrescentam camadas de história e autenticidade. A arte contemporânea que cruza disciplinas — instalação, performance, escultura — também foi determinante, ao mostrar-me que o espaço expositivo pode ser um corpo vivo, em constante diálogo com o espectador.

WAF — Há alguma obra ou momento na tua vida que consideres ter sido um ponto de viragem criativo?

Ana Leça – Houve um momento em que, durante o processo de criação de uma peça, percebi que já não estava apenas a representar o corpo, mas a deixar que a matéria se tornasse corpo em si mesma. Foi quando comecei a trabalhar o gesso e o metal como se fossem pele — deixando fissuras, texturas e marcas que não procuravam imitar, mas encarnar a memória e a vulnerabilidade humana. Essa descoberta mudou a minha forma de trabalhar: deixou de haver fronteira nítida entre forma e conteúdo, superfície e emoção. Desde então, cada obra é, para mim, um organismo em respiração, um corpo que carrega a sua própria história.

WAF — O que te motiva a criar e a persistir no teu trabalho artístico?

Ana Leça – O que me move é uma curiosidade que nunca se satisfaz. Não é a curiosidade apressada de quem quer respostas rápidas, mas a de quem gosta de se perder no caminho, de quem sabe que há beleza no intervalo entre a pergunta e a resposta. Crio para investigar aquilo que não sei, para chegar a territórios que não têm mapa. É essa curiosidade constante que me empurra para novas técnicas, novas colaborações, novas formas de ver o que já me é familiar.

Persisto porque a criação é, para mim, um diálogo infinito — com o mundo, com os outros, comigo mesma. Cada obra é uma hipótese de descobrir um detalhe que antes me escapava, uma ligação que ainda não tinha visto, um sentido que estava à espera de ser encontrado. A curiosidade não me deixa parar — é o motor silencioso que transforma cada obstáculo em possibilidade e cada pausa em germinação.

WAF — Como defines o propósito do teu trabalho enquanto mulher nas artes?

Ana Leça – O meu propósito é impactar o outro — não apenas pela beleza ou pela forma, mas pela fricção que desperta. Quero criar obras que se insinuem na memória e deixem perguntas a ecoar: Por que é que pensamos assim? E se fosse diferente? 

Como mulher na área artística, carrego comigo histórias que foram silenciadas, e a minha prática é também um ato de devolução: devolver visibilidade, devolver voz, devolver complexidade ao que tantas vezes foi reduzido. Procuro provocar deslocamentos — no olhar, na escuta, na maneira como nos posicionamos perante o mundo. Se a arte não nos faz repensar a nossa própria forma de estar, então ela não cumpre a sua potência transformadora.

WAF — Que mensagem ou reflexão pretendes transmitir com a tua obra?

Ana Leça – Quero lembrar que é preciso cultivar um olhar atento no dia a dia — um olhar que não se desvie do que dói apenas porque a sociedade, tantas vezes doente, nos ensina a ignorar. Vivemos cercados por um ruído constante que nos empurra para a pressa, para o consumo rápido de imagens e histórias, para o esquecimento fácil. A minha obra é, por isso, um convite a desacelerar e a ver de verdade: a reparar nas fissuras, nas ausências, nos gestos quase invisíveis que revelam tanto sobre quem somos.

Não acredito numa arte que anestesia; acredito numa arte que desperta, que incomoda quando necessário, que abre espaço para conversas que não cabem nos discursos oficiais. Quero que quem entra em contacto com o meu trabalho consiga sentir, ainda que por instantes, que existe outra forma de estar no mundo — mais presente, mais consciente, e sobretudo mais humana.

WAF — Como costumas organizar o teu processo criativo? Há algum método ou rotina que privilegias?

Ana Leça – O meu processo criativo nasce de forma quase instintiva: as peças surgem-me na mente já com corpo, escala e presença, como se sempre tivessem existido e eu apenas precisasse de lhes dar forma. Raramente recorro a medições rigorosas ou esboços exaustivos — sigo a proporção que imaginei ou a que as circunstâncias permitem.

Ainda assim, ando sempre com um caderno comigo. É nele que, nos momentos de maior fluxo criativo ou quando algo me desperta atenção, registo pensamentos, palavras e desenhos soltos. Esses apontamentos funcionam como pequenas âncoras — não necessariamente para serem seguidos à risca, mas para libertar espaço mental e permitir que as ideias verdadeiramente essenciais encontrem lugar para crescer. No fundo, é um equilíbrio entre intuição e registo: deixar a imaginação conduzir, mas com a consciência de guardar o que pode, mais tarde, transformar-se obra.

WAF — Que técnicas, materiais ou meios gostas mais de explorar na tua prática?

Ana Leça – A minha prática parte muitas vezes da pintura a óleo, explorando tonalidades monocromáticas entre o preto, o branco e toda a paleta de cinzentos que existe entre eles. Esse espectro reduzido obriga-me a procurar profundidade não na cor, mas na luz, na densidade e no silêncio que cada superfície retém.

Paralelamente, trabalho com moldes corporais em gesso ou alumínio — registos tridimensionais que capturam não apenas a forma, mas a presença, a memória física de um corpo. Interessa-me também a plasticidade do látex, pela sua semelhança inquietante com a pele humana; um material que, no contexto do meu trabalho, acrescenta um impacto visual e sensorial que desafia o olhar e provoca uma reação quase visceral.

Gosto de cruzar estes meios para criar obras que transmitam a realidade, entre a materialidade dura e a fragilidade orgânica, para que cada peça tenha tanto de escultura como de pele, tanto de objeto como de corpo.

WAF — Que papel têm a colaboração ou a interdisciplinaridade no teu trabalho?

Ana Leça – A colaboração no meu trabalho é fundamental, porque ele vive da história dos outros. Cada projeto é, de certa forma, um encontro de vozes — as minhas e as de quem se cruza comigo no processo. A minha curiosidade incessante leva-me a procurar diálogo não apenas com pessoas, mas também com materiais e linguagens distintas. Essa abertura traz uma multidisciplinariedade que atravessa tanto o conteúdo como a forma: posso trabalhar pintura lado a lado com vidro, gesso, alumínio, látex, têxtil, ou outros materiais inesperados. Cada matéria carrega a sua memória, a sua resistência e a sua fragilidade, e é no cruzamento entre elas que muitas vezes encontro novas possibilidades poéticas. Colaborar, para mim, é permitir que o trabalho se torne maior do que qualquer autoria individual, abrindo espaço para que múltiplas histórias e técnicas se entrelacem.

WAF — De que forma esta bolsa poderá transformar ou impulsionar o teu percurso artístico?

Ana Leça – Esta bolsa poderá ser uma rampa de lançamento — o impulso necessário para tornar o meu trabalho visível e dar o passo decisivo para a minha primeira exposição individual. 

Este apoio permitir-me-á não apenas concretizar uma série de obras que ambiciono, mas também projeta-la para além do meu círculo habitual, alcançando novos públicos e contextos. Será a oportunidade de colocar o meu trabalho no lugar onde sempre o imaginei: em diálogo direto com quem o vê, num espaço que o acolha e o amplifique.

WAF — Quais são as tuas expectativas em relação ao impacto deste projeto no contexto nacional/internacional? 

Ana Leça – As minhas expectativas são do tamanho do próprio projeto: amplas, ambiciosas e cheias de vida. Penso que está sólido na sua estrutura e pulsante na sua intenção, e sinto uma grande vontade de o tornar tão visível quanto possível. É inspirador fazer parte de uma iniciativa que não só eleva as mulheres artistas, mas também cria espaços reais de crescimento, visibilidade e reconhecimento. Ao longo deste percurso enquanto uma das 10 finalistas, tem sido um privilégio ouvir histórias de mulheres extraordinárias, trocar ideias e partilhar conhecimento. Acredito que, ao ser mostrado ao mundo, este projeto poderá gerar pontes, multiplicar vozes e inspirar novas narrativas no cenário artístico, tanto nacional como internacional.

WAF — Onde te vês daqui a cinco anos enquanto artista?

Ana Leça – Vejo-me a continuar a criar obras que atravessam fronteiras — geográficas, disciplinares e emocionais. Espero estar mais madura na minha prática, mas tão curiosa e inquieta quando agora. Quero manter-me fiel a essa mistura de risco e honestidade que sempre me moveu. Se daqui a cinco anos eu ainda sentir que cada novo projeto me assusta e me desafia, aqui e espero que fora de Portugal também, saberei que estou no caminho certo. 

Com esta entrevista iniciamos a série dedicada a dar voz às finalistas da 1ª edição da Women in Art Fellowship. A WAF nasce da colaboração entre o Freeport Lisboa Fashion Outlet, o Vila do Conde Porto Fashion Outlet, a Portugal Manual e a SOTA – State of the Art, e conta com a artista Joana Vasconcelos como madrinha da sua primeira edição.

Convidamos-te a acompanhar de perto este percurso: segue a WAF no Instagram e descobre mais sobre o trabalho de Ana Leça no Instagram e no seu website.

Sabe mais sobre a bolsa WAF neste artigo no blog.