Numa combinação entre geometria e natureza, João Bruno cria a partir de um material natural, a lã. No seu atelier, instalado no edifício da Moagem – Fábrica das Artes em Tomar, reinventa a tradição da tecelagem e da tapeçaria da região alentejana de Arraiolos, por inspiração materna, explorando as técnicas e materiais artesanais para esculpir peças de mobiliário de design simples e contemporâneo.

PM – O que te inspira além do seu trabalho? Quais são seus hobbies ou interesses fora do campo criativo?
JB – Tudo o que envolva estar em contacto com a natureza. Adoro mexer na terra e por isso a jardinagem é um dos meus hobbies preferidos e a que dedico mais tempo. É a minha forma de meditação ou de me recentrar.
PM – Qual é o teu lugar favorito para encontrar inspiração ou relaxar? Alguma paisagem ou ambiente que te inspire?
JB – A tradicional paisagem alentejana com a planície e o montado é sem dúvida um dos lugares onde me sinto em plena comunhão com a natureza. Embora já não viva no Alentejo, tenho igualmente a felicidade de viver numa região (o Ribatejo) com alguns dos meus refúgios preferidos: o castelo de almourol, por exemplo. Ou o Aqueduto dos Pegões e a Mata dos sete montes em Tomar.

PM – Tens alguma rotina matinal ou ritual que te ajuda a começar o dia com energia e criatividade?
JB – Sou mais de pequenas rotinas do que de rituais. Embora as primeiras se possam transformar em rituais. O meu dia não pode começar sem uns bons mimos dos meus cães e de um bom pequeno-almoço. Preciso dessa energia para trabalhar.
PM – Existe alguma história especial por trás de uma das tuas criações? Podes contar-nos um pouco sobre ela?
JB – Gosto sempre de contar como é que tive a ideia de fazer as pedras. Um dia, ainda no Alentejo, estava a dobar lã, que é um processo completamente mecânico e que faço com muita regularidade e surgiu-me a ideia: “porque não fazer novelos de maior dimensão?” Daí até chegar à forma das pedras foi um pequeno passo.

PM – Se tivesses a oportunidade de colaborar com qualquer artista/escritor/designer do mundo, quem seria e por quê?
JB – Incontornavelmente e porque é a referência mundial no panorama da arte têxtil, a grande Sheila Hicks. Desde que comecei a trabalhar nesta área e já lá vão 17 anos, ouvi vezes sem conta que o meu trabalho tinha pontos em comum com a obra da Sheila Hicks… e eu não fazia a menor ideia de quem fosse esta artista. Tantas vezes ouvi que inevitavelmente tive de pesquisar e descobrir a sua obra que é fascinante. Seria uma honra poder colaborar com a Sheila Hicks em algum projecto.

PM – Uma música?
JB – Tantas… mas pela época e pelo significado… a entrada na faculdade e na idade adulta, escolho “loosing my religion” dos REM
PM – Um livro?
JB – “Nenhum Olhar” do José Luís Peixoto
PM – Um filme?
JB – Magnólia; ou quase toda a obra do Pedro Almodova
PM – Uma côr?
JB – Todas!
PM – Um lugar.
JB – À beira-mar ou no topo de uma montanha
PM – Uma pessoa:
JB – Os meus pais.

PM – Uma peça tua:
JB – Dodecaedro

PM – Uma peça de um colega?
JB – Há muitos anos atrás, estava eu a dar os primeiros passos neste meio e numa exposição que vi em
Lisboa, deparei-me com uma peça que me marcou bastante: era um aparador branco feito e revestido integralmente com tomadas eléctricas. Estava longe de imaginar que mais tarde nos viríamos a cruzar na Portugal Manual. Refiro-me ao Gezo Marques, que, julgo, também estaria no início da sua carreira artística.

PM – Alguma experiência ou viagem que teve um impacto significativo no teu processo criativo? onde e porquê?
JB – Apesar de ter sido “noutra vida”, ter sido jornalista de televisão e ter tido o privilégio de fazer parte das melhores equipas de jornalista/repórter de imagem que passaram pela RTP foi das experiências mais enriquecedoras que pude ter e ainda hoje essa vivência continua a ser uma fonte de inspiração estética e formalmente.
PM – Quais são os teus métodos para lidar com o bloqueio criativo?
JB – É algo que felizmente não me acontece. Mas se passar por algo semelhante, de certeza que tentarei ocupar-me com algo que me distraia dessa limitação.
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