Uma máscara tem que sair à rua para virar careto

Texto: Milena Kalte
Fotografias: Noa P. Mendes

Sou Milena Kalte, antropóloga, artista e artesã. Trabalho com fibras vegetais e crio máscaras inspiradas em criaturas que habitam o imaginário popular português. Como artesã contemporânea neste nicho de criação bem particular, vejo-me frequentemente confrontada com uma questão: porque faço eu máscaras?

Para explorar esta questão, nesta mesma altura do ano passado, no carnaval, fui à procura do lugar do ritual e da máscara na sociedade contemporânea. Fui visitar o Entrudo de Lazarim e os ateliês (mais propriamente dito, garagens) dos artesãos que criam as icónicas máscaras em madeira de amieiro. Essas máscaras são, hoje em dia, indistinguíveis da imagem do Entrudo de Lazarim e têm contribuído significativamente para este se tornar conhecido a nível mundial e atrair, atualmente, entre 20 e 25 mil pessoas a visitar nos cinco dias do carnaval.

Lazarim: uma aldeia que é Entrudo

Chegando a Lazarim ainda três dias antes do início do carnaval, percebi rapidamente que o entrudo é o evento do ano e momento identitário por excelência para esta aldeia bastante isolada num pequeno vale perto de Lâmego no norte profundo de Portugal.

Percebi também que o Entrudo de Lazarim é um carnaval bem particular: a avassaladora maioria das pessoas que o frequentam não se mascara, mas vem ocupar o lugar de espectador. As pessoas mascaradas são chamadas de caretos e em Lazarim, todos os caretos têm que levar uma máscara de madeira de amieiro. Há também um raid fotográfico, uma comadre e um compadre, há testamentos e um concurso, organizado pela Junta de Freguesia, que distingue todos os anos a melhor máscara e o artesão que a esculpiu. O espetáculo principal do entrudo acontece na terça-feira gorda, no último dia de celebrações, é o dia em que as novas máscaras, feitas pelos artesãos locais, saem à rua pela primeira vez. Nenhuma máscara é igual, os artesãos fazem máscaras novas todos os anos. É o que distingue, segundo o Presidente da Freguesia, o Entrudo de Lazarim de todos os outros entrudos em Portugal.

O careto salta, brinca, ofende e abraça. Tudo nessa altura é permitido. Ao careto, a máscara transfere poder e transforma-o numa representação dos antagonismos, sagrados e profanos, que invadem as localidades nesta altura do ano. Um poder quase sobre-humano lhe confere por uns dias direito de representação social e liberdade de atuar à margem das regras. É uma dança entre ordem e caos, entre o céu e o inferno. O careto faz pedidos de proteção pagã à mãe natureza, ele pede a fertilidade & fecundidade dos campos agrícolas. São hábitos ancestrais que se perdem na noite dos tempos. – Museu da Máscara Ibérica.

É assim que se descreve o papel do careto e a função do entrudo nas placas informativas do Museu da Máscara Ibérica que foi instalado em Lazarim, há cerca de 20 anos, junto à pequena praça que é central às festividades do entrudo. Esta descrição do careto fez-me refletir sobre o atual lugar da transgressão na sociedade em que vivo e sobre as poucas maneiras que existem, sem punição pendente, de atuar à margem das regras. Fez-me pensar no ser careto como momento de autoexploração e -conexão. Quem sou eu, quando não sou eu? E quem posso vir a ser? Fez-me pensar também neste ritual como mecanismo de resolução de conflitos interpessoais e de libertação de tensões que algumas comunidades das aldeias tinham ao seu dispor.

É claro que, hoje em dia, os caretos já não ofendem ninguém. É um caos bastante bem ordenado, até diria, coreografado. Os caretos continuam a brincar e saltar e abraçar, sim, e às vezes mandam água ou farinha para cima das multidões. O público tira fotografias, compra máscaras em miniaturas como pin de roupa ou porta-chaves, come e bebe. Há uma feirinha montada por baixo de tendas de plástico onde se vendem produtos regionais, T-Shirts do entrudo e muitos doces.

Adão Castro: “O entrudo não era assim”

Conhecemos o artesão Adão Castro, um dos artesãos mais velhos da aldeia, quando ele estava a trabalhar nas suas últimas máscaras para o concurso deste ano do carnaval, junto com o filho, numa pequena cave subjacente à casa, o chão cheio de pedaços de madeira de amieiro, com música pimba bem alta a passar.

Ele contou, com alguma amargura, que o entrudo não era assim quando ele era novo, e que o comércio e as tendas de plástico desvirtuaram o carnaval. O entrudo era uma festividade organizada pelas pessoas da vila para as pessoas da vila. E que era um lugar de transgressão “a sério”: o momento anual de ajuste de contas entre os habitantes da aldeia. Brincava-se muito, desfrutava-se de estar neste lugar outro, de ser irreconhecível atrás da máscara, de não ser o próprio. Era um jogo do qual as agressões verbais e físicas faziam muitas vezes parte. Era um momento algures fora do tempo e das normas. Ainda se lembra bem daquela vez que um careto foi perseguindo um senhor, lá pelos campos fora, e ambos só apareceram horas depois.

Ele disse também que, na altura, não havia propriamente artesãos na aldeia e que as máscaras não eram feitas em madeira. As pessoas faziam as suas próprias máscaras em casa com tudo o que havia por aí, com peles, ossos e pedaços de animais, plantas, cortiça, trapos e rendas. Ele contou também como a celebração do carnaval e o uso das máscaras foi proibido pelas instituições religiosas nos tempos da ditadura, mas que as pessoas se mascaravam e saíam à rua na mesma, clandestinamente.

Segundo o Adão, foi apenas nos anos 80 que um Sr. Afonso fez a primeira máscara em madeira de amieiro.

Quando a tradição tem 50 anos

Pergunto-me como esta primeira máscara se foi transformando, silenciosa- mas poderosamente, numa espécie de imagem de marca que atualmente define, ou quiçá domina, o Entrudo de Lazarim? E será que a prática do entrudo em Lazarim teria persistido, se não tivesse casado afortunadamente com esta nova tradição de prática artesanal?

É curioso como tendemos a fundir, em termos discursivos, a ancestralidade e a tradição. As duas palavras são muitas vezes tratadas como se fossem sinônimos. Tendemos a assumir que algo que se chama de tradição há de ser também muito antigo. Não há dúvida que o Entrudo de Lazarim é uma prática ritual ancestral, cujas origens pagãs se perdem na noite dos tempos. No entanto, o famoso Entrudo de Lazarim e as suas icónicas máscaras em Amieiro são uma tradição bem recente com pouco mais de 50 anos de idade. Fiquei surpreendida, talvez chocada até.

Como é que uma prática artesanal vira tradição e ganha tal força para transformar a identidade de um lugar tão profundamente?

Há libertação na repetição

A ver os artesãos a trabalhar ao som da música pimba, fiquei a refletir sobre o meu próprio trabalho de artesã e criadora de máscaras e como muitas vezes sonho em ver as minhas máscaras a saírem para o ‘mundo lá fora’; de fazerem parte de uma tradição ou de um ritual em algures; de subirem para um palco; de virarem caretos. De cumprirem aquilo que vejo como o seu propósito mais profundo: de passarem de um objeto de contemplação para um objeto de interação. Um objeto ritual que toma o seu próprio rumo nas mãos de quem o veste, um objeto que quer transgredir e não ficar preso a uma parede de casa como decoração.

Segundo o Adão, nenhuma máscara que ele faz sai igual a outra e que é a madeira que manda nos pormenores da máscara. Ele diz que cria as suas máscaras pela intuição, que existem certas formas que se repetem, certos modelos como o rei, o diabo e a senhorinha, mas que cada máscara é uma interpretação nova e única destas figuras.

Lembro-me bem como tentava quase compulsivamente, nos meus primeiros tempos a fazer máscaras, repetir os mesmos modelos que tinha feito intuitivamente, mas que nunca consegui: cada máscara saía diferente, tinha feicões e uma expressão bem própria. Fiquei frustrada e preocupada, com medo que o seu futuro detentor não ia gostar e que deveria ser capaz de repetir e aplicar exatamente a mesma fórmula. Naquele momento da conversa com o Adão aconteceu um click na minha cabeça, e senti uma espécie de libertação desta pretensão da repetição que o rótulo ‘artesanato’ pode impor em nós, artistas-artesãos. Percebi que era justamente nesta qualidade de expressão própria, de uma criatura única que sai pelas mãos do artesão sem saber bem de onde vem e para onde vai, que as máscaras do Adão, e as minhas, ganhavam a sua força. Também percebi a importância de haver formas e símbolos (cornos, dentes, serpentes etc.) e modelos (diabo, rei e senhorinha) que se repetem, para se poder continuar a fazer máscaras novas todos os anos. Diz-se que a existência de limites, dentro dos quais a expressão artística se situa, estimula imensamente a criatividade. Nenhum artesão em Lazarim – para além do mítico Sr. Afonso – inventa uma máscara do zero, cada máscara é uma interpretação inovadora de um estilo e uma estética já bem definida. Uma estética que se enquadra, sem dúvida, com a cor clara e textura extremamente suave que a madeira do amieiro providencia, numa tendência crescente a nível de design e de artesanato que favorece os materiais ditos naturais.

“Uma máscara que não sai à rua, não é bem uma máscara”

O Adão contou-nos também que hoje em dia já há mais do que 20 artesãos a esculpir as máscaras em madeira, enquanto antigamente havia apenas três, a contar com ele próprio. O mais novo tem 20 e poucos anos, chama-se Daniel. Ele disse que agora, com a fama do carnaval de Lazarim, há muita concorrência entre os artesãos e que muitos estão nisso apenas pela fama e pelo dinheiro.

O Adão deixou muito claro que, uma máscara, para virar careto, tem que sair à rua. E que uma máscara que não sai à rua não é bem uma máscara. Ele disse que ele próprio só vende máscaras que já saíram à rua, diferentemente de alguns dos seus colegas, que fazem as máscaras só para as vender. Ele lamentou como este processo desvaloriza as suas máscaras e que a freguesia deveria impor um limite de máscaras por artesão para que não se acabe com os amieiros da zona.

Os amieiros: atores meio ocultos

Antes de conversar com o Adão sobre este tema, e ouvir o seu apelo ao cuidado para com esta matéria-prima local, já me tinha questionado sobre o impacto desta tradição não apenas na população local humana, mas também na população de Amieiros, os atores principais meio ocultos neste espetáculo de ritual/ performance pagã contemporânea.

Segundo o Adão, o amieiro é recolhido em Outubro e cortam-se apenas os troncos mais velhos. Um Amieiro tem que ter no mínimo 10 anos, melhor entre 15-20 anos para ter o tamanho certo para se poder esculpir uma ou duas máscaras a partir do seu tronco.

Se cada artesão faz entre 5-10 máscaras por ano, agora que somos 20 e tal, é só fazer as contas. Será que vai haver Amieiros suficientes para os próximos anos? – perguntou o Adão.

Mas não é só a máscara que define a imagem única do Entrudo de Lazarim, são também os fatos feitos de plantas que o caracterizam. Por regra geral, os caretos não fazem as máscaras que levam, mas são os artesãos que as fazem. Mas os caretos costumam fazer os seus próprios fatos com todo o tipo de materiais vegetais da zona. Há alguns artesãos que saem também de careto, mas são a minoria. Para a construção do fato, aproveitam-se roupas antigas como base à qual se cose e cola todo o tipo de matéria vegetal: desde o junco à giesta, das flores e ramos da acácia às folhas do milho, das plumas da cana e da cortadeira às cascas de noz. Parece que nesta parte da criação do traje não se aplica o mesmo purismo material que se aplica em relação às máscaras, que obrigatoriamente têm que ser feitas em madeira para entrarem no concurso, mas que os fatos deixam muito espaço para a improvisação, o engenho, o aproveitamento daquilo que está na época e abundantemente disponível na zona. Plantas introduzidas ou autóctones, parece que essas distinções se encontram diluídas nesta parte da tradição, todo o tipo de planta é bem-vinda desde que o efeito seja o desejado: de criar volume, cor natural e uma textura orgânica.

Tradição que traz cooperação

Visitamos a garagem de outro artesão, bem mais novo, que começou a fazer máscaras pela primeira vez durante a pandemia, e que ainda transborda de paixão pelo ofício e pela tradição. Ele disse que aprendeu o ofício sozinho, depois de ter observado outras pessoas a esculpir durante toda a sua vida, até chegar ao momento em que se disse: “Já chega de olhar, vou fazer uma máscara”.

Sem a amargura de quem já está metido nas máscaras (e nas dinâmicas entre-artesãos) a sua vida toda, descreveu com muita doçura o papel que esta tradição ainda desempenha na dinâmica e vivacidade da aldeia: atrai as pessoas a voltarem para a aldeia. Faz com que os habitantes se organizem e cooperem na organização do evento. Faz com que as gerações se encontrem na produção dos trajes ou no cozinhar do manjar comunitário que é oferecido a todos os visitantes no domingo do carnaval. Faz com que as pessoas se sintam orgulhosas de ser de uma aldeia do norte de Portugal, de Lazarim.

Ele próprio trabalhou, no dia em que o fomos visitar, na garagem da sua casa, junto com o seu irmão, a sua mãe, o filho de 12 e a filha de 6 anos, no acabamento dos trajes para o grande desfile dos caretos de terça-feira. Ele descreve aquele momento na tarde de terça-feira, em que a aldeia está a fervilhar de energia e magia, quando os caretos se soltam e começam a sair de todos os cantos e garagens da aldeia, mostrarem as máscaras ao mundo pela primeira vez, descendo as ruas e enchendo a aldeia com os seus trajes imponentes e caras absurdas. A sua filha está na mesa ao lado, a colar folhas de eucalipto por cima de uma saia antiga que vai vestir, junto com a máscara de senhorinha em versão pequenina que o seu pai lhe esculpiu. Os dois vão sair juntos na terça-feira, de careto, para as ruas de Lazarim. Uma imagem que ficou comigo e me emocionou.

Várias caras numa só máscara

Tal como pode haver várias caras esculpidas numa só máscara, percebi que há também vários lados a serem contemplados quando se trata de processos de “patrimonialização”. São complexos e delicados, em negociação constante sob o campo de forças entre a necessidade de modernização e o agarrar-se àquilo que traz pertença e identificação. Não é claro para mim quando uma prática ritualística como o entrudo – antes popular, uma performance das pessoas da aldeia para as pessoas da aldeia – se torna numa mera encenação de um paganismo meio exotificado, parte de uma cultura de espectadores e consumidores. Será que é sequer possível, domesticar um ritual tão profundamente selvagem? Como é que um ritual se transforma quando é consumido, em vez de consumado? Será que o entrudo fez aquele clássico negócio com o diabo, quando trocou o seu poder social & transformador pela imortalidade, fama e dinheiro?

Estou consciente de que a tradição não é um ser estático, como gostamos de a pensar, que fica sempre igual, fiel à nossa espera. Nesta história entre caras, criaturas e costumes, o que me parece crucial é de ganharmos mais consciência de que as tradições são reinventadas continuamente. Não se trata aqui de tradições que têm que ser salvaguardadas a todo o custo, mas de pessoas que as mantêm vivas porque precisam delas – precisam dessa sensação de pertença e identificação que as tradições oferecem. As tensões que daí surgem são, inevitavelmente, parte desse processo de reinvenção e renegociação contínua.

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